A volúpia eleitoral tomou conta da política brasileira. O objetivo passou a ser um só: vencer a próxima eleição, mesmo que o preço seja destruir parte da economia. Parece exagero? Vamos aos fatos.
CURTO HISTÓRICO
Desde o início do segundo mandato, Trump vem impondo restrições às importações. No Liberation Day, até ilhas habitadas apenas por pinguins entraram na lista de sobretaxas.
Como os EUA têm uma Suprema Corte independente, e não um puxadinho do Executivo, parte dessas tarifas foi anulada. Trump então recorreu à Section 301, instrumento que permite investigar práticas comerciais consideradas prejudiciais aos interesses americanos. Mais de 60 países estão na mira, não apenas o Brasil.
Participei diretamente de uma investigação da Section 301 em 1986. Em um depoimento polêmico em Washington, conseguimos retirar os setores de cerâmica, têxtil e móveis da lista de produtos sujeitos às tarifas.
A lógica sempre foi a mesma: os EUA colocam vários “bodes na sala” para negociar sua retirada em troca de concessões. Em 1986, o alvo era a Reserva de Informática. Para derrubá-la, dezenas de setores foram utilizados como moeda de negociação.
MEIOS JUSTIFICANDO OS FINS
Enquanto outros países negociavam para proteger suas economias, da diplomacia à restrição de exportações de terras raras, como fez a China, o Brasil transformou a crise em campanha eleitoral.
A direita radical ofereceu munição ao governo americano com as trapalhadas de Eduardo Bolsonaro, cujo ativismo em Washington acabou fortalecendo argumentos para novas sanções. O setor produtivo conseguiu reduzir parte dos danos, mas as manifestações durante as audiências da Section 301 poucos ajudaram.
A esquerda aproveitou o conflito para vestir a fantasia da defesa da soberania nacional. O discurso rende votos. O problema é que empresas quebram e trabalhadores perdem o emprego. Somente no Planalto Norte de Santa Catarina, onde resido, mais de mil pessoas já foram demitidas.
RESULTADO
Com a eleição brasileira e o ego de Donald Trump contaminando as negociações, a conta chegou para quem produz. As sobretaxas atingiram principalmente produtos industrializados como bolsas, ferramentas, motores, máquinas, móveis, têxteis, utilidades domésticas e dezenas de outros itens que os EUA podem comprar de fornecedores alternativos.
E a ironia final: a maior parte dessa conta será paga por São Paulo e Santa Catarina, justamente os estados cuja pauta exportadora é baseada em produtos industrializados que conquistaram mercados pela competência, produtividade e inovação. Ao contrário de setores que sobrevivem graças à eterna muleta dos subsídios, esses agora terão de arcar com o custo de uma política externa que transformou diplomacia em palanque eleitoral.
Até quando vamos tolerar dois modelos corruptos e personalistas prejudicarem o Brasil?
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