SUL GLOBAL – UTOPIA OU DELÍRIO?

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Por Ismar Roberto Becker

O Sul Global é uma força geopolítica real ou apenas uma categoria intelectual que reúne países profundamente diferentes, que querem fazer frente às grandes potências?

Existem ideias que não vingam, mas seguem sendo requentadas e apresentadas com outra embalagem. O mote é sempre: desta vez vai dar certo!

Comunismo, projetos “gasto é vida” de esquerda ou direita, Sul Global são três deles. Não é mera coincidência os três serem pilares do plano de governo (sic!) de um dos favoritos na corrida presidencial.

A ideia requentada começou com Lênin em 1916. O ativista americano Carl Oglesby (1952) batizou a chamada exploração dos países periféricos. O chanceler alemão Willy Brandt, que plantou uma das sementes da decadência alemã (1980), queria que os países centrais pagassem a conta do desenvolvimento dos periféricos.

A versão atual é um ornitorrinco, exótico mamífero australiano que bota ovos e parece um pato. Países sem nenhuma proximidade econômica, religiosa, cultural ou geográfica se reúnem para ser uma alternativa aos dominadores exploradores dos desenvolvidos do Norte. Esta é sua única bandeira.

O probleminha (sic!) desta versão requentada é que todos são iguais, mas um é mais igual do que os outros.

A China é maior, em todos os aspectos, do que todos os outros sócios juntos. Tem assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, armas atômicas e é a segunda potência econômica do planeta. Como ela ainda não consegue a liderança nas regras pós-Segunda Guerra e queda do Muro de Berlim, utiliza estados vassalos para escrever suas regras.

A China enganou a Europa, principalmente a Alemanha, e os EUA, com a promessa de que o crescimento econômico, em parte financiado com exportações para os países ricos, faria dela um membro do clube das chamadas democracias liberais.

Como nos ensina Stephen Kotkin, regimes comunistas podem até fazer aberturas econômicas. A China é o melhor exemplo. Não podem, contudo, fazer aberturas políticas. Gorbachev conseguiu avanços da Perestroika (economia), mas, com a Glasnost (política), implodiu a URSS. Nenhum país se tornou comunista, se manteve ou deixou de ser em uma eleição livre.

E o Brasil nesta história requentada?

Com a política externa narcisista-megalomaníaca-retrograda atual, nosso destino é um só: continuar fornecedor de recursos naturais, importador de produtos industriais e legitimador diplomático de uma ordem desenhada por Pequim. Em resumo, ser um vassalo do imperador Xi.

Este é o melhor papel que o Brasil pode desempenhar na nova ordem global?

Fonte: “Global South – Today’s Great Utopia?” – Stephen Kotkin.

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