NOSTALGIA NÃO É ESTRATÉGIA

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Por Ismar Roberto Becker

Sua empresa está construindo o futuro ou administrando a saudade dos seus melhores anos?

O fundador desbravou mercados, enfrentou crises e construiu um patrimônio. Merece respeito. O problema começa quando suas conquistas se tornam justificativa para não mudar.

“Sempre fizemos assim.”
“Conheço esse mercado.”
“Isso já deu certo.”

Frases que encerram discussões justamente quando seria necessário abri-las.

John Davis, um dos meus professores na Harvard Business School, aborda esse risco: tradição e legado têm valor, mas não justificam manter negócios, investimentos ou práticas que deixaram de gerar resultados. O apego pode comprometer a capacidade dos proprietários de reconhecer que chegou a hora de mudar.

Para o empreendedor, essa reflexão é desconfortável. Uma fábrica pode representar décadas de sacrifício. Um produto pode carregar o nome da família. Um executivo pode ter acompanhado o fundador desde o início. São vínculos importantes, mas as decisões sobre o futuro precisam considerar também clientes, concorrentes, produtividade e retorno do capital.

O consumidor não compra nossa história por gratidão. Compra o valor que conseguimos entregar hoje.

Honrar o fundador exige compreender sua coragem para empreender em seu tempo. Repetir suas decisões em circunstâncias diferentes pode destruir justamente o patrimônio que se pretende preservar.

Na política, vemos um candidato octogenário diante do mesmo desafio. Se por um lado os três mandatos poderiam representar uma valiosa experiência, por outro dificulta entender e aceitar as mudanças no eleitorado. Baseado no primeiro debate, não vi nenhuma disposição para rever crenças e visões de um país e do mundo que mudaram.

A memória dos primeiros mandatos não responde, por si só, aos desafios da inteligência artificial, da produtividade, do envelhecimento da população e de uma economia internacional em transformação. Ignorar uma imensa nova classe média, que não quer um Estado interventor, é quase um haraquiri eleitoral. Pior ainda é taxá-la (não é taxar de cobrar imposto) de “pobre de direita”, é uma afronta.

Na empresa e no governo, a experiência ajuda quando amplia a capacidade de interpretar a realidade. Torna-se obstáculo quando alimenta a certeza de que todas as respostas já foram encontradas.

“Nostalgia não é estratégia”, disse Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, sobre a realidade de um novo relacionamento com os EUA.

O passado merece reconhecimento. O futuro exige escolhas, inclusive a coragem de abandonar aquilo que um dia nos fez vencer.

Você está preservando um legado ou utilizando o legado para adiar decisões?

Fonte: “Families Today must Think like Owners” – John Davis.

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