O trapezista tem que fazer os outros acreditarem que ele voa. Quando ele próprio acredita, o chão é o limite.
Empreendedores, na economia ou na política, têm uma tolerância maior ao risco. Tomam decisões com menos informações do que a maioria das pessoas. Enxergam, ou acreditam que enxergam, oportunidades que os mortais comuns não enxergam.
Este mindset gerou fortunas e levou indivíduos improváveis ao poder. Muitos souberam reconhecer seus limites. Outros caíram do trapézio.
Jim Collins, em “How the Mighty Fall”, descreve cinco estágios da decadência: arrogância nascida do sucesso, busca indisciplinada por mais, negação dos riscos, procura desesperada por salvação e, finalmente, capitulação à irrelevância ou à morte.
O primeiro estágio merece atenção. A queda começa quando tudo ainda parece estar dando certo. O sucesso vira uma espécie de certificado de infalibilidade. O sujeito esquece a equipe, as circunstâncias e até a sorte. Tudo aconteceu porque ele é extraordinário. Quem discorda simplesmente não entendeu sua genialidade.
Os gregos chamavam isso de hubris: orgulho desmedido, capaz de apagar a percepção dos próprios limites. Em bom português: subir à cabeça.
Na minha leitura, Lula e Daniel Vorcaro ilustram esse perigo em palcos diferentes. Um construiu poder político; o outro, poder financeiro. A comparação está na arrogância de quem passa a tratar limites como obstáculos que sua influência pode remover.
Em Lula, vejo essa postura quando a convicção de saber o que é melhor para o povo se sobrepõe à disposição de ouvir críticas. Um rompante desta megalomania foi quando disse que o agro catarinense tinha que se ajoelhar diante dele. A trajetória de superação, as vitórias e os aplausos podem alimentar a ideia de que sua vontade basta. Só que popularidade não revoga a aritmética, e intenção não garante resultado.
Vorcaro me remete à outra face dessa embriaguez: a crença de que dinheiro, prestígio e acesso aos poderosos tornam qualquer salto possível. O problema é confundir influência com competência e capacidade de convencer com capacidade de entregar.
O aplauso ajuda a perder o equilíbrio. Em volta do poderoso, críticas rareiam e concordâncias prosperam. Quem alerta vira pessimista. Quem questiona vira inimigo. Quem bajula ganha cadeira na primeira fila.
A coragem abre caminhos. Para continuar neles, é preciso ouvir, conferir números e aceitar limites. O bom líder precisa de gente capaz de dizer: “Você está errado”. Este é o papel mais difícil de um conselheiro: colocar o guizo no rabo do gato do fundador, que acredita que pode voar.
Porque a plateia pode acreditar que o empreendedor voa, mas a gravidade continua funcionando.
Conhece algum exemplo?
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