Juros não sobem só por gastos do governo ou por pressão dos rentistas. Por que o Brasil tem um dos principais juros reais do planeta?
Juros são um custo que pagamos para antecipar recursos do futuro para financiar o presente. O imortal Eduardo Giannetti classifica isto como trocas intemporais, sendo as escolhas entre ter algo no presente ou no futuro.
Aqueles que precisam, ou querem, antecipar um benefício pagam juros. Os que renunciam ao consumo presente recebem juros. Os dois (tomadores e poupadores) são necessários para fechar a conta.
Um debate entre um progressista (José Dirceu) e um renomado economista (Samuel Pessoa) trouxe este debate ao público.
O primeiro, que defende distribuir riqueza antes de gerar, diz que os juros são altos por culpa da estrutura centralizada do setor financeiro, somada à chantagem dos rentistas, que conseguiriam definir os juros estabelecidos pelo Banco Central.
O segundo, com um currículo ética e tecnicamente incomparável ao do primeiro, afirma que o Estado e a sociedade consomem no presente mais recursos do que a economia consegue produzir. Isto obriga o Banco Central a elevar os juros muito acima da inflação.
Apesar do seu elevadíssimo déficit ético, é necessário reconhecer as habilidades retóricas do ex-terrorista. Ele concorda que o modelo “Gasto é Vida” é um dos fatores dos altos juros, mas que o debate sobre a Selic de 14% “não se resume ao quadro fiscal e diz respeito a poder, desenvolvimento e distribuição de renda”.
Alguém, com um pingo de honestidade intelectual, pode ser contra o desenvolvimento e a distribuição de renda? É óbvio que não.
O problema está quando alguém, com um currículo no mínimo questionável, argumenta que “O gasto público em saúde, educação, ciência, inovação, habitação, saneamento e infraestrutura não pode ser tratado apenas como consumo de recursos escassos”, porque “ele também amplia a produtividade, cria demanda, induz investimentos privados e eleva a arrecadação e a capacidade futura de crescimento do país.
Os dois erros fundamentais deste “Gasto é Vida” com uma narrativa mais acadêmica, são a negação da escassez, que foi decretada por Marx, e a falácia de que gastos governamentais hoje geram impostos amanhã, utopia keynesiana.
A aposta na inexistência da escassez da Nova Matriz Econômica afundou o Brasil. Entre 2015 e 2016, a inflação chegou a 10,67%, o desemprego a 11,5%, o PIB caiu 6,7%, o PIB per capita mais de 8%, a taxa de juros bateu 14,25%.
A repetição do desastre dilmístico só está sendo evitada porque temos um Banco Central independente, que não manipula os juros. Entre 2011 e 2016, a meta de inflação era de 4,5%, e o teto, 6,5%. O BC (des) administrado pelo Bendini baixou a Selic para 7,25%. O resto é história.
Vale a pena ver de novo?
Fonte: Artigos de José Dirceu e Samuel Pessoa na Folha de São Paulo; “O Valor do Amanhã” – Eduardo Giannetti.
#IsmarBecker #Juros #Inflação #Recessão #Desemprego #BolsaFamilia #Populismo #Economia



