Uma soma da anestesia político-administrativa de 16 anos da Muti Merkel, com uma pivotada na geopolítica global, atropelou o modelo de sucesso alemão. Qual a alternativa para a Alemanha?
Em 2016, quando tentava administrar minha empresa na Alemanha, fui visitar um amigo em uma cidadezinha na fronteira com a Suíça e Áustria. Ele estava fazendo uma terapia de recuperação em um Kur (spa médico).
Em qualquer parte do mundo, o problema (sic!) dele seria tratado com uns dois dias de atestado e uma caixa de Melhoral. No Krankenland (país dos doentes), ficou duas semanas aproveitando o Urlaubsland (país das férias).
O trabalhador alemão tem 45 dias de férias, somados a outros 20 dias de atestados médicos, com uns 16 feriados. Isto justifica nomes sugeridos para o país.
Chegando na cidadezinha, topei com um verdadeiro campo de batalha. Manifestantes de esquerda de um lado, simpatizantes da AfD (Alternativ für Deutschland) dentro de um cinema, a polícia no meio dos dois.
Nesta época, a AfD, qualificada como extrema direita, teve 4,7% dos votos nas eleições de 2013. Pulou para 12,6% nas eleições de 2017 e 20,8% nas de 2021. As últimas pesquisas apontam cerca de 28% das intenções de voto.
Na última eleição, os partidos de direita, incluindo a AfD, tiveram 53,7% dos votos, mas o CDU/CSU, centro-direita, fez uma coligação com o SDP, centro esquerda, mas dominado pela ala mais radical. Em outras palavras, foi um verdadeiro estelionato eleitoral contra a direita.
O programa do AfD, com umas 180 páginas, tem temas polêmicos como remigração dos asilados (eufemismo para deportação), proibição do uso de véus em público pelas mulheres muçulmanas, abandono do radicalismo climático, saída ou desmonte da União Europeia, reaproximação com a Rússia, fim do imposto dos meios de comunicação, fortalecimento da família tradicional, reconhecimento de apenas dois sexos biológicos.
Resumindo, é claramente uma proposta antiwoke. Paradoxalmente, a maior líder de partido vive com uma mulher nascida em Sri Lanka e cria dois filhos em uma família homoafetiva. Casa de ferreiro, espeto de pau!
Com a herança maldita da Muti Merkel, os dois governos posteriores perderam uma grande parte da base de apoio. As pesquisas atuais apontam a AfD com cerca de 28% das intenções de voto. O atual governo está por um fio.
O dilema político é a “Brandmauer”, cordão sanitário. Os outros partidos definiram não coligar, fazer acordos nem aceitar votos da AfD para seus projetos. O argumento, válido, é que algumas propostas da AfD são inconstitucionais.
A pergunta que não quer calar: como ignorar um partido que começou contra o euro, entrou no Bundestag criticando a imigração desenfreada e tornou-se uma força nacional contra o sistema político estabelecido, com quase 30% das intenções de voto pode ser ignorado?
Fonte: “What Actually Happens if the Far Right Starts to Win Power in Germany”- DW News.
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