O MUNDO MUDOU, O PODER NÃO.
Gostamos de imaginar que as decisões empresariais resultam de análises objetivas, planilhas impecáveis e debates orientados pelo melhor interesse da organização.
Será?
Aproveitei um sábado frio e chuvoso para organizar minha biblioteca. Num típico caso de serendipidade (encontrar algo onde não procurava), reencontrei um livro que li lá pelos anos 80 – The Naked Manager, de Robert Heller.
Em uma análise no estilo “Vida Executiva Como Ela É”, podcast no qual o Sergio de Faria Bica Jr. e eu contamos “causos” de gestão na prática, me deliciei com o capítulo que aborda como decisões são tomadas por critérios muito menos racionais do que pensamos.
É incrível como as ambições pessoais, a defesa do território, a disputa pelo território, o instinto de autopreservação, a disputa sobre orçamentos, a construção de alianças, a destruição de alianças dos outros, a transferência de responsabilidade tem um peso muito maior do que o que seria melhor para o negócio.
Primeiro se decide. Depois se procura a planilha capaz de provar que a decisão era racional.
Um investimento pode ser defendido não porque seja prioritário, mas porque aumenta o poder de determinada área. Um projeto pode ser rejeitado não por falta de retorno, mas porque ameaça posições estabelecidas. Uma decisão pode ser adiada não por prudência, mas porque ninguém deseja assumir o risco — embora todos queiram participar do mérito se der certo.
O problema não é a existência da política. Onde há pessoas, recursos escassos e ambições, haverá poder.
O problema começa quando a empresa chama de “análise técnica” aquilo que é defesa de território. Ou de “consenso” aquilo que resultou de alianças construídas nos corredores. Pior é quando uma decisão que não tem um bom fundamento é tomada por ser “estratégica”. Qualquer semelhança com a justificativa das empresas estatais não é mera coincidência.
Antes de aprovar uma decisão, talvez seja necessário perguntar:
Quem ganha poder? Quem perde espaço? Quem assume o risco? E quem já preparou a explicação caso tudo dê errado?
As empresas se modernizaram. As disputas humanas, nem tanto.
Alguma semelhança com as empresas nas quais você atuou? E com a vergonhosa lavagem de roupa suja do STF?
Fonte: “The Naked Manager” –Robert Heller.
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