DÍVIDA NÃO SE PAGA, SE ROLA

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Por Ismar Roberto Becker

Quem brinca com fogo pode se queimar. O que pode acontecer quando o Nero moderno brinca com uma fogueira global?

Sabe qual é a diferença entre um populista de direita e um de esquerda com relação à disciplina fiscal? Nenhuma. Os dois acreditam na frase do título, de autoria de Delfim Neto.

O governo brasileiro vai parar em 2027 ou 2028, porque as despesas obrigatórias, a maioria criada pelos (des) governos populistas de esquerda desde 2002. Isto será um problema, mas também uma oportunidade para os brasileiros.

O governo americano está tendo problemas em rolar sua dívida, que nos últimos dias passou dos 40 bilhões de dólares, ou 120% do PIB. Antes que os terraplanistas fiscais da Modern Monetary Theory comemorem, 120% do PIB para os EUA é muito menos do que os 81,9% do Brasil.

A MMT garante que o país que tem dívida na moeda que emite pode se endividar até o pescoço. Os EUA emitem dólares, sendo a moeda global das finanças, do crime organizado, da corrupção e do terrorismo. Teoricamente, nenhum país teria melhores condições de não se preocupar com disciplina fiscal do que os EUA. Para a surpresa dos discípulos da MMT, os EUA tiveram que tomar uma medida radical para evitar o estouro da boiada da renovação dos títulos do Tesouro americano.

Lá como cá, o populista no poder reclama dos juros altos, embora o deles seja bem mais baixo do que o nosso. Como o FED, com um presidente indicado pelo Trump, teima em cumprir seu mandato de controlar a inflação (outra semelhança), o Secretário do Tesouro, o Taxad de lá, tirou um coelho da cartola.

A pirotecnia foi anunciar que o governo aumentaria a recompra de títulos públicos de longo prazo, que o mercado só estava comprando por juros cada vez mais altos. Os com vencimento em 10 anos estavam a 4,65% e os de 30 anos, a 5,28%. Felizmente o Brasil não tem este problema. Aqui quase ninguém compra títulos de juros pré-fixados por não acreditar que gasto é vida.

A desculpa para a intervenção foi dar mais liquidez para o mercado, problema que ninguém sentia. Na verdade, o objetivo foi aumentar artificialmente a demanda por esses títulos, aumentando seus preços e baixando os juros. Isto beneficia os republicanos nas próximas eleições. Qualquer semelhança com o Bolsa Voto daqui não é mera coincidência.

O efeito colateral, contudo, é que esta interferência do Tesouro mexe na formação dos juros, o que não é sua função. A curto prazo, a operação pode baratear o crédito; a médio prazo, pode aumentar a desconfiança, elevar o prêmio de risco e produzir o efeito contrário: juros de longo prazo mais altos.

Será que, além do narcisismo doentio, é a irresponsabilidade fiscal a responsável pela química entre o populista de lá e o de cá?

Fonte: “America Will Regreat Scott Bessent´s bond-market disadventures” – The Economist.

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