Políticos são conhecidos por estelionato eleitoral: prometer uma coisa e fazer outra quando assumem o cargo. Quer acompanhar um estelionato inédito, cometido antes mesmo do vencedor assumir o mandato?As últimas eleições presidenciais tiveram duas características peculiares. Uma foi a diferença mínima entre os dois candidatos, a outra foi que uma boa parte dos que escolheram o candidato “B” o fizeram porque rejeitaram o candidato “L”, e vice-versa.Estimo que uns 20%, dos 50% que cada candidato teve, usaram este critério. No caso do presidente eleito, economistas, empresários e formadores de opinião declaram seu apoio para “L”, por serem contra os arroubos totalitários de “B”.Todos sabiam que “L” não é simpático aos princípios liberais (gastar bem e somente o que arrecada), mas acreditaram que equilíbrio fiscal, fundamental para o bem-estar da população, principalmente os com renda mais baixa, seria mantido.Este sonho transformou-se em delírio na semana passada, com uma incontinência verbal do presidente eleito. Nunca na história deste país (como ele gosta de dizer) um presidente antes de assumir, comunicou de forma tão clara, que não vai cumprir o que prometeu. Os mais pessimistas (me incluo entre eles) concluíram que a vaca da responsabilidade fiscal foi para o brejo. Para não me acusarem de exagerar na avaliação, vamos transcrever duas memoráveis declarações.“Por que as pessoas são obrigadas a sofrer para garantir a tal da responsabilidade fiscal deste país? Por que toda hora falam que é preciso cortar gastos, é preciso fazer superávit, é preciso cumprir o teto de gastos?”“Algumas coisas encaradas como gastos neste país vão passar a ser vistas como investimentos”.Ante protestos de muitos liberais que apoiaram o presidente eleito, a presidente do partido da estrela vermelha, atropelou a lógica, a matemática, além da fala do chefe no dia da eleição. Afirmou que o discurso de “L” tem o apoio de 100% dos eleitores que votaram nele. Conhecemos a crônica incapacidade das esquerdas com duas operações aritméticas (somar e multiplicar), já só usam as outras duas (diminuir e dividir o que é dos outros). Alguém deveria, contudo, perguntar à deputada se estes 100% incluem nomes como FHC, Armínio Fraga, Pérsio Arida, Henrique Meirelles, só para citar alguns? Pior do que isto: como ficam os 49,10% dos votos válidos que preferiram o outro candidato, já que o presidente eleito disse que governaria para os 215 milhões de brasileiros? O novo governo manterá a lógica de só governar para quem votou nele? Não caberia uma manifestação do futuro presidente? John Reed escreveu o memorável “Dez Dias que Abalaram o Mundo”, contando os primeiros dias da Revolução Russa de 2017. Sem insinuar nenhuma aliança automática com a ideologia de Lenin, penso que algum cientista político poderia escrever um livro com o título “Dez dias que abalaram o Brasil. Como um presidente eleito enganou uma grande parte dos seus eleitores antes de tomar posse.”Qual a sua leitura da manifestação do presidente eleito?#ismarbecker #economia #orçamento #inflação #recesso #politica



