O OUTONO DO PATRIARCA DE GARANHUNS

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Por Ismar Roberto Becker

Todo poder tem um verão. Alguns têm primavera. Poucos reconhecem o outono. Será que o presidente está entrando nele?

A queda de popularidade do presidente deve-se à sua desconexão com a realidade socioeconômica brasileira. Ele não está conseguindo sentir o pulso da população.

No livro O Outono do Patriarca, Gabriel García Márquez, retrata um ditador que se mantém no poder por tanto tempo que perde o contato com a realidade, descobrindo tarde demais que seu domínio já havia se esvaziado por dentro. Vamos ver alguns sinais que indicam que o Patriarca de Garanhuns está no mesmo caminho:

– Hábito do poder: os quase 11 anos na presidência levaram a um poder quase absoluto. O que era meio (mandato para executar ações), passou a ser fim (poder pelo poder).

– Ilusão de controle: acreditar que um executivo possa controlar 37 ministros é delírio. Muito menos para alguém que não é necessariamente um workaholic. Ignorar a sensação de perda de poder de compra dos mais pobres é grave. A inflação está baixa, assim como o desemprego, mas esta narrativa não resolve o problema.

– Isolamento progressivo: no primeiro mandato o patriarca tinha alguns poucos interlocutores que podiam discordar. Agora está cercado de “yes men”, que se limitam a aplaudir e rir das cada vez mais bizarras declarações em discursos de improviso. “Traficante é vítima”, “Jovens não querem mais trabalhar”, “O Brasil tem fronteiras com todos os países da América do Sul”, são algumas das pérolas.

– Sinais ignorados: o problema da narrativa falsa é quando o narrador acredita nela. A sensação de falta de perspectiva de melhoria de vida, os escândalos envolvendo amigos e filho, os exageros da primeira-dama, a fadiga do eleitor (ele de novo), ignorar a mentalidade dos empreendedores individuais (Uber, motoboys), não derrubam isoladamente. Juntos é outra história.

– Sucessão inexistente: os potenciais sucessores foram sendo descartados ao longo do tempo. A sucessão só acontecerá, de forma atabalhoada, quando a biologia seguir seu caminho.

– Novo pai dos pobres: o patriarca é venerado pelos dependentes originais do Bolsa Voto (ops! Família). O problema é que muitos dos primeiros beneficiados já morreram, e os filhos e netos não têm a mesma dívida de gratidão.

Em O Outono do Patriarca, ele é cercado por bajuladores, isolado da sociedade e incapaz de reconhecer sua própria decadência. O Patriarca atravessa o tempo acumulando poder, solidão e delírio. Com o tempo, seu domínio se esvazia por dentro, revelando que, no fim, o poder que parecia eterno era apenas uma construção frágil sustentada pelo medo e pela ilusão.

No livro, o patriarca morre sozinho, abandonado e praticamente esquecido, dentro do próprio palácio. Não houve uma queda dramática nem revolução, apenas o esvaziamento silencioso de alguém que confundiu permanência com controle.

O Patriarca de Garanhuns está no seu outono?

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