Abandonar o comunismo econômico e aproveitar a globalização tirou cerca de 800 milhões de chineses da miséria em quatro décadas. É um feito histórico. A pergunta incômoda é outra: até quando isso se sustenta?
Desde as reformas de Deng Xiaoping — resumidas na máxima “não importa a cor do gato, desde que cace ratos” — a China substituiu a economia centralizada de Mao por um modelo pragmático.
Capitalismo na economia. Autoritarismo na política.
O resultado foi a maior redução de pobreza da história moderna. Ponto para o capitalismo econômico, não para o socialismo real.
Como observa Michael Pettis, o crescimento chinês seguiu um Modelo de Desenvolvimento Movido pelo Investimento, com três pilares: investimento maciço em infraestrutura; sistema financeiro controlado pelo Estado, com crédito direcionado; proteção da indústria nascente, combinada com concorrência interna.
Foi assim que surgiu a chamada “fábrica do mundo”.
Esse modelo se consolidou nas Zonas Econômicas Especiais. Milhões de trabalhadores migrantes operaram sem direitos sociais plenos, com salários baixos e jornadas extensas. Qualquer semelhança com a Inglaterra da Revolução Industrial não é coincidência — embora esse detalhe costume desaparecer do discurso dos coletivistas tropicais.
Todo milagre, porém, cobra seu preço.
Com juros artificialmente baixos e uma população historicamente poupadora, o capital migrou para o setor imobiliário. Governos locais passaram a se financiar com a venda de terrenos — num país onde a propriedade privada havia sido abolida.
O resultado foi uma distorção relevante: segundo estimativas citadas por economistas como Pettis e análises da The Economist, a China construiu um estoque habitacional suficiente para abrigar mais de 2 bilhões de pessoas, em um país com cerca de 1,4 bilhão de habitantes, cuja população já entrou em declínio.
Outras potências já enfrentaram dilemas semelhantes.
Os Estados Unidos ajustaram excessos com a crise de 1929.
O Japão entrou em décadas de estagnação após o colapso dos anos 1980.
Para evitar um desses caminhos, a China precisaria mudar seu modelo.
O problema é que isso implica perda de poder e privilégios para centenas de milhares de pequenos ditadores locais do Partido. Isto lembra certos coronéis brasileiros
Para completar, a Guerra Fria 2.0 reduziu drasticamente o investimento estrangeiro direto. Cadeias produtivas estão sendo redesenhadas, e fábricas deixam a China rumo a outros países.
A China não vai colapsar amanhã. Mas também não repetirá o milagre das últimas décadas.
A pergunta estratégica agora não é sobre a China. É sobre como países como o Brasil devem se posicionar nesse novo tabuleiro.
Fonte: Money & Macro — “Why China’s growth miracle is failing” | DW News — “How Xi Jinping’s authoritarianism is killing China’s economy” | The Economist
Texto original de Ismar Becker, reescrito pelo ChatGPT.
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