Já faz tempo que o Brasil está polarizado (nós x eles). O cenário piorou. Agora estamos fragmentados. Quer saber como e por quê?
“O que molda os valores de uma sociedade é o ambiente de segurança material em que as gerações crescem”. Ronald Inglehart escreveu isso nos anos 70.
MATERIALISMO X PÓS-MATERIALISMO
Sociedades sofridas, que passaram pela pobreza, guerra, inflação, desemprego, insegurança, têm valores mais materialistas. Suas prioridades são ordem, segurança, disciplina, previsibilidade, estabilidade política e econômica.
Sociedade Pós-Materialista vem de economias estáveis, com bons níveis de educação, bem-estar social e sem ameaças existenciais. Nunca tiveram os problemas dos dois níveis mais baixos da pirâmide de Maslow. Buscam autorrealização, preocupam-se com o meio ambiente, com a diversidade, direitos civis, participam na política. Quanto maior for a sensação de segurança, mais as pessoas se focam nos valores imateriais.
BRASIL MATERIALISTA
Quanto mais seguro o indivíduo se sente, mais ele desloca prioridades para valores imateriais. Seguindo esta lógica, a maioria dos brasileiros deveria ser conservadora. Isto se reflete nas eleições municipais, estaduais, para o Legislativo estadual e federal. Por que não vale para as eleições para presidente?
BRASIL 2025
O país mudou com as manifestações populares de 2013. O impeachment da presidenta aprofundou o nós x eles. No recém-lançado Brasil no espelho, Felipe Nunes diz que o brasileiro voltou ao século passado, por ser majoritariamente conservador, embora tenha estado no caminho para um pós-materialismo de Inglehart. Um amigo, muito mais capacitado do que eu, atribui esta avaliação a uma leve tendência melancólica do autor ao fracasso do projeto (sic!) progressista que domina o país desde 2002.
Pelo histórico profissional dele, julgo apropriados os cinco grandes grupos nos quais ele divide os brasileiros: os que priorizam segurança, os que dependem do Estado, os antissistemas, os progressistas e os identitários.
Concordo especialmente que o Brasil é muito grande e plural para caber nos modelos de Inglehart, por ser politicamente fragmentado, economicamente desigual, politicamente tribalizado e institucionalmente estressado.
Duas perguntas que não querem calar:
Por que o partido que foi contra o Plano Real, e todas as evoluções institucionais do final do século passado, mas que governou 66% do último quarto de século, fez os brasileiros voltarem ao século passado?
Existe um caminho além da extrema polarização do Brasil?
Fontes: “The Silent Revolution – Changing Values and Political Styles” – Ronald Inglehart; “Brasil no Espelho” – Felipe Nunes.
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