Taxa de juros escorchantes, polarização ideológica, déficit fiscal galopante, sanções dos EUA. Como o mercado ainda acredita no Brasil?
Pensei em várias opções para o título deste post. Acabei emprestando o título de um filme de Fellini que conta a história de um navio cruzando o Mediterrâneo, com os passageiros fazendo festas, não se preocupando com a guerra que estava chegando. Este parece ser o Brasil de hoje.
Diferentemente do que alguns incautos, ou de má fé, dizem, não é a Faria Lima que determina os rumos da economia, os juros e o câmbio. As decisões da Faria Lima são tomadas por milhões de pequenos, médios e grandes investidores, que querem proteger suas economias. Com o cenário atual, agravado pelas sanções dos EUA, os indicadores de otimismo dos poupadores deveriam estar no fundo do poço. Por que não estão? Será a calmaria antes da tempestade ou estão apostando em algo que nós não estamos enxergando?
Até os que caíram no conto do vigário do Arcabouço fiscal já sabem que este (des) governo nunca teve nenhuma intenção de controlar gastos. Apostou em um aumento de receitas que até aconteceu, mas não na velocidade dos gastos indexados.
Mesmo que um impossível déficit fiscal zero fosse atingido, somente a conta dos juros, que são pagos com dinheiro emprestado, elevaram o déficit dos +- 77,6% para 81,4% do PIB em 2025. Sonhando com uma Selic de 11% ao longo de 2026, chegaríamos ao fim deste (des) governo com uma dívida equivalente a 86,1%. Como vão gastar muito mais do que quem não tem para se reeleger, deve chegar perto de 90%. Considerando os precatórios, que foram retirados do cálculo, e outras despesas varridas para debaixo do tapete, passaremos dos 90%.
No lado surpreendentemente positivo, a Bolsa passou dos 140 mil pontos, a inflação está baixando devido a taxa de juros, o dólar está valorizado, o desemprego está baixo, até porque muitos preferem não trabalhar formalmente para continuar a mamar nas diversas Bolsas Eleitorais.
O lado negativo, do qual poucos falam, é que o investimento privado, fundamental para o aumento da produção está em um dos níveis mais baixos da história. Uma coisa é participar da festa no navio, com um colete salva vidas, que permite pular do navio a qualquer hora. Outra é resgatar dinheiro aplicado a mais de 15% ao ano, comprar máquinas que vão produzir mais, ou reduzir custo, para gerar esses 15% mais uns 10% para justificar o risco. Isto é uma inflação encomendada para qualquer aquecimento econômico.
Como o capitão do navio não está preocupado, já que tem um bote esperando para levá-lo a algum lugar seguro no caso de naufrágio, uma possível colisão com um muro que está ali na frente é quase inevitável. Se o capitão (nenhuma relação com que está indo para o calabouço) se reeleger para o comando do navio em 2026, o naufrágio será inevitável em 2027, como foi em 2016.
A pergunta que não quer calar: dove va la nave? Qual o seu cenário?
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