CRISE DE PODER NA CHINA

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Por Ismar Roberto Becker

Há algo de podre no reino da Dinamarca, disse Shakespeare sobre o assassinato do rei do país nórdico. Estará acontecendo o mesmo no Reino do Meio, com o imperador Xi Jinping?

Em regimes ditatoriais, é difícil perceber sinais de fraqueza dos poderosos. Mao, Stalin e Hitler conseguiram esconder milhões de mortos causados por seus erros, até depois de suas mortes. Na China pós-Mao, não sabemos quantos foram mortos na Praça da Paz Celestial, nem quantos estão em campos de concentração na Região Autônoma Uigur de Xinjiang. Nos últimos meses, contudo, estamos assistindo a alguns sinais de ruptura no modelo econômico e político. Vamos ver alguns deles.

A China de Mao era um dos países mais pobres do planeta, com uma renda per capita abaixo de 200 dólares, equivalente ao Sudão e à Etiópia. A liberação da economia, onde a ideologia importava menos do que a livre iniciativa, deflagrada por Deng Xiaoping, elevou o PIB para uns 12 a 13.000 dólares, acima do Brasil.

O modelo capitalista na economia tem seus custos. Hoje, 75% dos chineses têm uma renda per capita de uns 3.000 dólares, 1% detém 30% da riqueza e 10% dois terços. O desemprego dos jovens deixou de ser divulgado, mas deve superar os 25%. Mais de 300 milhões de empregados não têm nenhum benefício social ou de aposentadoria.

O milagre chinês:

– Investimento em infraestrutura: estradas, aeroportos, trens de alta velocidade brotaram do chão como cogumelos, até perder eficiência econômica.

– Especulação imobiliária: como os chineses não confiam nos bancos, que são estatais, poupava investindo em imóveis. Isto resultou em uns 80 milhões de imóveis desocupados.

– Fábrica do mundo: aproveitando a mão de obra semi-escrava, sem direitos trabalhistas, sem sindicatos, sem previdência, produziam tudo mais barato. Os cortes de fornecimento durante e depois Covid ensinaram ao mundo que não se deve colocar todos os ovos lá. Para colocar o último prego no caixão do modelo, Trump resolveu colocar tarifas de mais de 100% sobre as importações chinesas.

Após consolidar o controle do Partido Comunista Chinês, do Exército de Liberação e do Poder Executivo, Xi Jinping acumulou poderes que nem Mao Zedong teve. Conseguiu mudar a constituição, permitindo um governo perpétuo. A única notícia de contestação do seu poder foi a interrupção de um jantar de Estado, por uma primeira-dama de um país da América do Sul.

Nos últimos meses, afastamentos de alguns dos seus protegidos de funções do executivo ou no exército vêm chamando a atenção. Pelo menos um morreu subitamente. Ainda mais sintomática foi a ausência da Xi no encontro dos BRICS no Brasil, para o desespero do seu pupilo. Uma teoria é que o Exército de Liberação, preocupado com os erros de Xi, resolveu diluir seu poder.

Será que o oráculo dos órfãos da URSS está começando a rachar?

Fontes: The Challenge of China, The Aspen Institute; The End of Xi Jinping, Allen Zeng, British Thought Leaders.

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