Desde 2002 o Brasil está dividido entre “nós x eles”. As últimas eleições podem ter sido o último capítulo desta trágica novela. Por que acredito nisto?
Desde os tempos do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, o presidente reeleito utilizou a fórmula de dividir para conquistar. No sindicato, no partido e na presidência, sempre encontrou um inimigo para mobilizar a tropa, e se manter no poder. O maniqueísmo do “nós x eles” é seu único mantra.
Nas últimas eleições, a maioria não votou nele ou no adversário que fugiu para os EUA. A maioria votou para impedir que o outro ganhasse. O cenário do Brasil “calcificado” prevaleceu.
O modelo da polarização só fica de pé com um inimigo a combater. No nazismo, eram os judeus e outras minorias. No comunismo, os burgueses. No Brasil, uns 45% escolheram um lado, outros 45% o outro. Como na eleição de 2022, os 5% dos Sociais Liberais e os 5% dos Empreendedores Individuais decidiram a eleição. Como social-liberal, não votei no Flávio, votei contra o Lula.
Este modelo está acabando pela idade do que ganhou e pela incompetência do que fugiu. Os quatro anos do novo mandato podem ser interrompidos pela biologia ou pela política, mas não terão continuidade porque não tem mais um inimigo.
Na estatística, aprendemos que devemos retirar os eventos extremos para fazer uma média, porque eles distorcem o resultado. Na política brasileira, estes extremos são uns 3% da extrema-direita e uns 7% dos militantes de esquerda, segundo Felipe Nunes. Estes 10% são fanáticos com os quais não adianta argumentar. Com a grande maioria dos 90%, contudo, seguramente os pontos convergentes são maiores do que os divergentes.
Cinco princípios básicos podem nos ajudar a unir os dois brasis:
– Reconhecer o adversário como legítimo: abandonar a ideia de que quem vota diferente é inimigo do país. Divergir não pode significar perder o direito de participar.
– Retirar dos extremos o poder de veto: lideranças de direita e esquerda precisam construir acordos sem subordinar suas decisões aos grupos que dependem do confronto permanente do nós e eles.
– Aplicar as mesmas regras a aliados e adversários: violência, corrupção, abuso de poder e ataques às liberdades devem ser punidos dos dois lados. Todos corrompidos pelo Vorcaro devem pagar, inclusive os filhos de presidentes.
– Organizar o debate em torno de problemas concretos: segurança, educação, produtividade e equilíbrio fiscal permitem discutir metas, custos e resultados, abrindo espaço para convergências além das ideologias.
– Quem vence governa sob fiscalização; quem perde mantém o direito de fazer oposição e disputar novamente. Nenhum grupo pode tratar o Estado como propriedade sua.
Vale a pena estender a mão para os que pensam diferente, para unir o Brasil?
Fonte: “Brasil no Espelho” – Felipe Nunes; Como as Democracias Morrem – Steven Levitsky e Daniel Ziblatt.
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